Por Geovanna Domingos

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O nosso bagunçado

As pessoas mudam. Os gostos, as opiniões, o jeito de se vestirem e até o que elas sentem. Um dia estão amando imensamente, como se não houvesse o amanhã, no outro fingem que tudo não passou de um engano, um erro ou que não era para ser.
Era quase meia noite, eu tinha acabado de chegar da faculdade, você esta estranho o dia inteiro.  Você estava jogado no sofá, dedilhando alguma música da Legião Urbana no violão, não se levantou quando me viu, não abriu um sorriso, não esboçou nenhuma reação. Tirei minhas botas e acariciei Sirius Black, nosso cachorro e fui direto para o quarto. Quando fechei a porta, deixei as lágrimas caírem silenciosamente, jurei para mim mesma que nunca deixaria você me ver chorar. Nunca. O silêncio gritava em nosso pequeno apartamento, o espaço entro nós era tão grande, que chegava a sufocar. Onde foi que nós nos perdemos? Quando foi que isso aconteceu?
O celular vibra, chegou uma mensagem daquele meu amigo que você não gosta, a campainha toca, é aquela sua amiga que eu nunca confiei. Você sempre diz que tudo é culpa minha, me faz acreditar que sou a louca da relação, que nós estamos assim por minha causa. O que mais me assusta, é que eu sempre acabo acreditando.
Deito na nossa cama, desejando que ela não tivesse tantas lembranças, essas lembranças me envolvem em um abraço apertado, desses que você nunca mais me deu. Minha mãe está me ligando, mas eu não quero atender, ela tem que pensar que eu estou bem, que nós estamos bem e nem um pouco arrependidos.
Fecho os olhos e finjo que não estou mais aqui, finjo que você não está do outro lado da porta. O apartamento está gelado, mas não está frio lá fora. Ouço você mexendo na maçaneta, mas desisti e volta a se sentar no sofá, eu me abraço, lembrando da promessa que você me fez quando nos conhecemos, aos 8 anos de idade, que iria cuidar de mim para sempre. Pelo o que estou vendo, o para sempre, sempre acabada. Viro-me para o outro lado, encaro as portas do guarda roupa que estão escancaradas, meu vestido vermelho curto ainda está jogado no chão. Lembra que você o jogou na nossa última briga? Segundo você, aquele vestido era revelador de mais.
Sirius se deita do meu lado, acaricio a barriga dele, o único ser que sabe o que estamos passando. Deixo as lágrimas lavarem todas as feridas que você deixou dentro de mim, eu me rego, na esperança de florescer. Sinto os meus olhos se fechando lentamente, como se eu estivesse sendo embalada em um sono muito profundo. Dou uma última olhada no relógio, são 3:00 da manhã, você parou de tocar violão.
Levanto da cama e vou em direção a porta, sinto que você está do outro lado, indeciso, sinto o cheiro do seu perfume, aquele que eu te dei no Natal passado, nossas mãos pairam sobre maçaneta. Não sei se devo abrir ou trancar a porta, na dúvida, deixo ela encostada. Espero mais um pouco para ver o que você vai fazer. Nada. Tudo bem. Eu me encolho mais ainda e volto para a cama, minhas pernas estão arrepiadas, mas eu não tenho forças para pegar uma coberta no armário. Apenas fecho os olhos e deixo o frio me abraçar, finjo que é você. Depois de um tempo, ouço você abrindo a porta, depois o armário, me cobre com o cobertor rosa, o meu preferido que trouxe da casa dos meus pais, logo em seguida você deita, sinto os seus braços me ampararem, salvando-me do pesadelo que eu estava tendo. Nós dois damos um longo suspiro de consentimento, e ali, em seus braços, voltei a dormir, sentindo um misto de medo e felicidade, pois eu não sabia para onde estávamos indo, e pelo tremor em suas mãos, desconfiei, que você também não.

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