Por Geovanna Domingos

domingo, 28 de outubro de 2018

As palavras que eu te dei


Eu me joguei no sofá. O silêncio veio me receber. Suas coisas já não estavam mais no meu apartamento. A gente cansou de brincar de se gostar. Uma carta amassada, jogada no chão, não tem importância, eram apenas palavras, palavras minhas para você, que embrulhei com tanto cuidado e medo do que você iria pensar.
Respirei fundo, meu estômago roncava, já não estava mais preenchido pelas borboletas que ali habitavam. Fui escorregando lentamente, até chegar no chão, você me deixou assim na nossa última discussão.
O chão está frio, combina com os meus pensamentos. Penso em ir para a banheira e me afogar, mas eu já estava fazendo isso com os meus sentimentos, eles me consumiam de dentro para fora. Você deixou muita bagunça dentro de mim, a bagagem ainda está aqui, impedindo a passagem.
Pego o papel e desamasso-o, minha caligrafia estava tremida, ainda tinha manchas que o meu choro causou, não só no papel, mas no meu coração. Leio atentamente cada linha que te escrevi, cada desabafo, dúvida e medo que eu tinha a respeito de nós.
Isso vai dar em alguma coisa? Por que  você está tão distante? Não se importa mais comigo? Achei que dessa vez nós faríamos dar certo. Mas não. Era só eu, minhas histórias de amor, meus planos de namoro e meus sentimentos confusos. Eu te avisei quando nós nos conhecemos, eu sou um abismo, cuidado para não chegar muito perto, nem eu conheço a minha profundidade. Eu posso pular a qualquer momento, não quero te levar junto.
Fecho os olhos, penso nos passeios que não tivemos, as idas ao cinema, piqueniques no parque, tardes jogados no sofá assistindo filmes, você visitando os meus pais no domingo... As pessoas ainda fazem isso?
Percebi que tinha alguma coisa errada, quando me peguei pensando em quem seria o meu amor, e a resposta não foi o seu nome, nem o seu rosto, nem o  nome dele.
É interessante, a sua ausência não me é estranha, antes mesmo de ir embora, você já não estava mais aqui. Eu viro pro lado e não tenho o seu peito pra fazer de travesseiro, ergo a minha mão, mas não tem a sua para segurar.
Acho que eu sempre estive sozinha enquanto estava com você. Mas o meu coração ainda dói, não vou estar sendo sincera se eu falar que tivemos apenas momentos ruins.
Sinto falta do seu beijo, suas mãos envolvendo a minha cintura e me erguendo no ar, o teu abraço tão casa, nossas brincadeiras e desse seu sorriso que sempre me faz dar dois passos pra trás e pular em cima de você.
Eu não sei onde a gente se perdeu, nem sei se chegamos a nos encontrar. O tempo está passando, eu não quero levantar do chão, ele está me abraçando, fazendo se passar por  você. Uma brisa suave entrou pela janela, acariciando o meu cabelo bagunçado, quase sussurrando que tudo ficaria bem. Eu sabia que precisava florescer. Ouvi leves batidas na porta, não precisei abrir para saber que era você. Permaneci no chão, estava me proibindo de levantar, não vou deixar você entrar, meu apartamento, e o meu coração, estão fechados para reforma. Você tenta mais uma vez, mas eu não respondo. Começo a chorar, não me importo se você vai ouvir ou não. Na verdade, eu quero que você ouça, que cada lágrima minha te machuque, que sua mente entre em disparada, tentando entender o mal que me causou. As batidas somem. Eu levanto a cabeça. Um envelope branco escorrega por de baixo da porta. Apenas uma palavra. Desculpe-me.

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