Por Geovanna Domingos

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Escorregando

Minhas mãos estavam suadas, meu coração acelerado, subia a rua com a garrafa de vodka na mão, pronta para mais uma festa, pronta para rever os meus amigos, para simplesmente esquecer do que tinha acontecido. Acho que não comentei com vocês, mas há dois dias terminei um "relacionamento". Ta bom, eu e ele estávamos só ficando, mas eu juro, as promessas de amor que ele me fazia, me levaram a acreditar que aquilo poderia ser real. Foram cinco meses e três dias de pura trouxisse, mas tudo bem, talvez eu merecesse, eu também não era a ficante mais perfeita do mundo, mas isso é assunto para outro desabafo.
Enfim, naquela noite eu estava decidida a não ter nada com ninguém, apenas comigo mesma. Minha garganta secava só de eu olhar para a garrafa de vodka, mas precisava me controlar, pelo menos até chegar a festa.
Blusa preta de renda decotada, calça jeans, talvez um ou dois números maior, mas tudo bem. Bota cano curto? Sim, sempre! Batom vermelho, aquele que eu sempre passo quando não quero pegar ninguém.
Eu achava "pegar" uma palavra meio sem nexo, fria e muito vazia. Mas fazer o que? Nós jovens, super descolados, totalmente livres, sem rótulos e vontade de afirmar algo sério, nos vemos no dever de usar essa palavra. Como é mesmo? Pega, mas não se apega? Que coisa mais ridícula. Papo de quem não consegue achar ninguém, ou que sofreu alguma desilusão amorosa e agora quer culpar o mundo todo.
Eu não estava ali para pegar e nem me apegar a ninguém. Estava ali por mim, precisava sair, encontrar o meu eu que estava perdido há exatamente cinco meses e três dias. Desenterrei aquelas roupas do fundo do armário, ele não gostava que eu me mostrasse daquele jeito. O batom vermelho estava jogado de baixo da minha cama, ele  dizia que chamava muita atenção. Que se dane. Usei tudo hoje. Quando me olhei no espelho, vi uma menina, menina não, mulher, uma mulher que tinha tomado de volta o controle não só do seu guarda-roupa ou da sua aparência, mas da sua vida.
A festa estava animada, cheguei e fui direto para a geladeira. Uma skol beats, por favor! Da azul. Pista cheia, meus amigos me puxam para a roda. São as melhores pessoas mesmo. Mais uma cerveja aqui, outra catuaba ali, abriram a minha garrafa de vodka, todo mundo bebeu, não sobrou nada para mim. Mas tudo bem.
Fecho os olhos, sinto a música, levanto os braços, todo mundo me olhando, que sensação gostosa. O celular estava tocando, mas eu não quero falar com ninguém agora. Sinto a minha nuca ficar molhada, desço ate o chão ao som do último funk do momento. Livre! Liberdade! "Oh quem voltou, para a sacanagem", eu mesma! Tô de volta, como diz Dani Russo, a pista já estava com  muita saudade de mim. Cheguei para ficar.
Uma conversa aqui, pedidos do meu número ali, mas nada me abala. Garotos chatos, com assuntos chatos, tudo muito chato. Bora  voltar para pista? Lá está uma delicia! Mais uma cerveja? Sim, por favor! Meu amigo se pendura no meu pescoço, começamos a pular ao som de Kelly Key. Pois é, somos bregas, porém felizes. "Baba, olha o que perdeu. A criança cresceu..." Okay, parei.
Até que aconteceu. Ele chegou. Congelei, meu estomago congelou, minhas mãos suavam, eu estava tonta, mas não era mais o efeito do álcool, era outra coisa.
Tudo bem, não pira, ele é só um rapaz. Um rapaz bonito, que faz o seu tipo, tem cara de que beija bem e ainda por cima é super cheiroso. Não gente, eu não estava apaixonada. Apenas... interessada vai... Tentei tirar aquilo da cabeça, ou melhor, ele da minha cabeça. Outro cara chegou em mim, assunto chato. Outro rapaz, mais chato ainda. Procuro em meio a multidão o amor da minha vida, quero dizer, o rapaz que eu tinha achado bonito. Ele estava no canto, tomando uma cerveja, meio tímido, sem jeito e completamente lindo.
"Ah, que se dane". A gente só vive uma vez. Chamei a minha amiga de canto e pedi para ela me ajudar. A guria era rápida, eu mal tinha terminado de falar e ela já estava perto do rapaz, tomei um  gole da minha cerveja para disfarçar e comecei a rir que nem uma idiota para o meu amigo, que eu acho que sacou tudo, ou estava tão bêbado que estava rindo de graça para mim. Gente boa.
Alguns minutos depois, minha amiga voltou. Esperei ouvir um não, bem gostoso e cheio de ternura."Ele disse que está te esperando". Para tudo! Meu coração acelerou, capotou e bateu de frente com um muro. Respirei fundo e fui até ele. Geovanna, calma, vai ser só uma ficada, um beijo, um momento, depois você vai voltar para a festa e continuar a sua vida. Ou quer ser trouxa por mais cinco meses?
De perto ele era mais bonito ainda, nos cumprimentamos com um beijo na bochecha, que escorregou para a boca, que escorregou para outra coisa. A partir dali, a gente foi escorregando para outros lugares. Para o cinema, para a lanchonete, churrascaria, para a casa dele, para a minha casa...  E nós seguimos escorregando por ai. Pois é, encontrei o amor da minha vida.

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Metamorfose

Eu sou sentimento, amor, confusão, paz, serenidade e ansiedade. Tudo misturado. Tenho os meus momentos de mocinha e as vezes faço o papel ...