Por Geovanna Domingos

segunda-feira, 25 de março de 2019

(Sem) Aviso de despejo

Eu preciso pedir desculpas.
Desculpas para eu mesma.
Você me deixou ir, apenas abriu os braços e me deixou escapar, fui escorregando lentamente, até não sobrar mais nada de mim entre os seus dedos. É como se eu simplesmente esquecesse de como é ser dona de mim, das minhas vontades, dos meus gostos, dos meus prazeres e das minhas opiniões. No final da história, a bruxa acabou sendo eu mesma. A cobra. A falsa. A megera. Eu acho que me concentrei tanto em fazer com que todo mundo gostasse de mim, que acabei deixando a minha própria opinião, sobre eu mesma, de lado. Eu esqueci de fazer com que eu goste mais de mim também.
Guardei dentro do meu peito meus medos, minhas opiniões sobre você, sobre o seu jeito de sempre querer atenção, achar que está sempre certo e que todos a sua volta são os maus da história. Escondi entre os meus sorrisos falsos  de aprovação e mandei a voz que está dentro da minha cabeça calar a boca, quando ela me dizia que você não era meu amigo.
Sou covarde de mais e muito insegura para conseguir te dizer o quão errado eu acho esse seu jeito, de sempre me deixar sem jeito. Você me leva a caminhos e situações em que eu sempre acabo me desculpando e me enrolando. Eu me enrolo nas minhas palavras, nas suas opiniões, na nossa amizade, tão complicada e cheia de nós, nós que nós formamos conforme o tempo foi passando.
Acho que a grande culpada no fim disso tudo sou eu mesma. Deveria ter falado mais. Talvez eu pagaria de louca, mas não me importo mais...
Eu sou poesia, sou palavra, sou sentimento, pensamento, coração, mente... Fria, quente, louca, chata, metida a sabe tudo e também me faço de coitada por não saber de nada. Confusa. É assim que você me deixa. Sinto falta dos nossos momentos, mas logo em seguida, lembro que eles não foram reais. Como posso sentir falta de uma coisa que não foi real?
As cicatrizes nas minhas costas estão aqui para provar que eu senti cada uma das palavras que você falou sobre mim... para outro alguém. Dói, machuca, fere e eu não sei para onde correr. Eu costumava chamar a nossa amizade de casa, mas agora vou ter que me mudar de volta para eu mesma. Você não precisou me despejar, eu que quis sair, o aluguel estava ficando muito caro.
É triste esbarrar com a sua antiga casa na rua e continuar andando, como se ela não significasse mais nada para você. Seguir em frente, fingir que nada daquilo aconteceu.
Esse é o nosso pior erro. Fingir que não fomos machucados e que machucamos também. Tentar esquecer que também fomos casa para alguém, e que o preço do nosso aluguel também subiu... Desconhecidos, estranhos, é o que nós somos agora.
Mas eu comecei esse texto dizendo que precisava pedir desculpas para eu mesma.
Por que?
Eu, que sempre fui contra a censura, acabei fazendo isso comigo mesma. Eu acabei subindo tanto o preço do meu aluguel, que quase acabei sendo despejada também. Nós dois na mesma casa não cabe. É apertado de mais. E se teve uma coisa que eu aprendi nessa amizade, foi que se eu não te colocar para fora, vou acabar na rua.   

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Metamorfose

Eu sou sentimento, amor, confusão, paz, serenidade e ansiedade. Tudo misturado. Tenho os meus momentos de mocinha e as vezes faço o papel ...